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O principal índice global de preços de alimentos das Nações Unidas atingiu em março o maior nível em 61 anos, e série do Fundo Monetário Internacional (FMI) a partir de 1900 aponta recorde em cem anos. O patamar atual supera as marcas do período da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e da primeira crise mundial do petróleo em 1973, quando o barril do petróleo saltou em mais de 400% em cinco meses.

Soma-se esse cenário de inflação devido à restrição de oferta mundial com a Guerra da Rússia e Ucrânia, e o freio na economia Chinese por conta dos novos Lockdowns, e temos um cenário caótico que deve derrubar o crescimento global e criar uma situação de recessão mundial já em 2023.

Em se tratando de Brasil, a inflação acumulada dos últimos 12 meses chegou na casa de 11,30% a.a. puxada principalmente pelo aumento no preço dos combustíveis, que impacta diretamente o setor de transportes, custos de frete e logística e no setor de alimentação e bebidas.

O preço do Petróleo Brent – petróleo cru – chegou na casa dos US$ 106, cotação pouco abaixo daquela vista antes da crise financeira imobiliária de 2008 nos Estados Unidos, de US$ 132,72/barril.

Quando se trata dos Estados Unidos, a inflação vem subindo consistentemente, puxada principalmente pelo setor de energia e atingiu 8,5% a.a. no acumulado dos últimos 12 meses, maior patamar desde 1981 e ainda convive com taxas de juros extremamente baixas, 0,25% – 0,50% a.a., o que prejudica ainda mais o controle da inflação. Juros altos encarecem o custo do crédito, que por sua vez prejudica os investimentos, aumenta o desemprego e reduz o consumo agregado, para atingir o objetivo final de retirar liquidez da economia, ajudando justamente no controle da inflação de demanda.

Em relação à Guerra, tem-se que a Rússia e a Ucrânia não são economias extremamente fortes, mas são muito importantes para o mundo pela exportação de fertilizantes, grãos, e do próprio petróleo e o gás natural. Como commodities são produtos globais, os maiores custos com esses produtos estão forçando os Bancos Centrais do mundo todo a atuarem de forma mais restritiva.

Dito tudo isso, temos ainda a questão dos surtos de COVID na China, que têm levado a lockdowns frequentes na segunda maior economia do planeta, e isso pode frear ainda mais o consumo global, trazendo queda nos investimentos e no crescimento do PIB mundial.

O que seria uma recessão global?

Uma recessão ocorre após dois trimestres consecutivos de crescimento negativo, que na verdade recebe o nome de recessão técnica, e isso pode vir a ocorrer em 2023, caso o conflito no Leste Europeu e os choques causados por ele nas cadeias produtivas globais não apresentem uma melhora no curto prazo.

Soma-se tudo isso ao fato da retirada de estímulos da maior parte dos bancos centrais ao redor do mundo – que têm mostrado maior disposição em apertar a política monetária para controlar a inflação – e temos um cenário que, historicamente, leva a quadros recessivos.

Outro ponto que corrobora com a possível recessão, é o fato da curva de juros de rendimento da nota do Tesouro Americano de 2 anos ter superado o da nota de 10 anos, o que significa que houve uma inversão da curva de juros, situação na qual um título de curto prazo apresenta mais risco, e portanto mais rendimento, do que um título de longo prazo, que em tese deveria estar remunerando mais por conta do maior risco inerente ao maior prazo. A inversão desse movimento costuma ser um indicador de receio dos investidores de que uma desaceleração econômica ocorra no futuro. Isso se traduz também em uma preocupação que o Federal Reserve (FED) suba os juros de forma mais intensa do que o necessário.

Viveremos então um cenário de estagflação?

Estagflação é uma situação simultânea de estagnação econômica, ou recessão, e altas taxas de inflação. É com certeza uma situação atípica do funcionamento regular da economia, pois o baixo nível de atividade econômica costuma vir acompanhado de uma queda na inflação devido a diminuição da demanda agregada. Ela costuma ocorrer principalmente quando há choques de ofertas intensos, tais como durante a crise da pandemia do COVID-19 e agora com a guerra da Rússia e Ucrânia.

Como fica o Brasil nessa situação?

A possibilidade de um quadro recessivo nas economias desenvolvidas também traria efeitos negativos para países emergentes, como o Brasil. Dependendo de quanto for a desaceleração econômica dos Estados Unidos, provocado pelo aumento das taxas de juros pelo FED, o apetite ao risco dos investidores globais pode diminuir, levando a uma fuga de capital das economias emergentes para economias consideradas portos seguros para o capital, tal como o próprio Estados Unidos.

O real, ainda hoje, apresenta forte apreciação no ano devido ao patamar elevado dos preços das commodities, entrada de fluxo de capital estrangeiro e claro, o diferencial de juros praticados no mercado interno e externo. Mas essa situação pode se modificar caso o aperto monetário nos Estados Unidos seja maior do que o esperado e reduza a diferença entre essas taxas. Consequentemente a nossa moeda pode voltar a desvalorizar e prejudicar o combate à inflação doméstica.

Portanto, o cenário de recessão econômica mundial é altamente provável em 2023.

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Willian Capriata

Mestre em economia e Graduado em Economia pela UFMT; certificado em CPA10, CPA20 e CEA; Investidor Qualificado; Membro do grupo de pesquisa Núcleo de Estudos em Economia e Inovação (CNPQ); possui artigo científico publicado em revista de reconhecimento internacional: Brazilian Journal of Political Economy na área de Macroeconomia. Dedica-se a ajudar pessoas a conquistarem uma vaga no Mercado Financeiro e de Capitais.